Centenário

     - És um demónio - gritou.
     - Calma, não sou um demónio - responderam-lhe.
     Acalmou-se, concentrando-se nas imagens que captava do ambiente em redor. Na noite escura conseguia ver as árvores e os animais de pequeno porte escondidos nos arbustos. A floresta era cerrada, mas os seus olhos treinados conseguiam agora captar todos os movimentos. Quando os treinara? Olhou-se, a medo. Conhecia o que acontecia àqueles que nao cuidavam o seu corpo, eram feridos e mortos por animais selvagens com facilidade ou despojados e deixados na miséria por guerreiros com maior força. Mas não havia razão para ter receio. Possuía musculos fortes que agora que os olhava sentia com vigor. Reparou que alguns estavam até adornados com temas selvagens. Provavelmente para lhe dar um ar assustador. Quando os tinha pintado?
     - Consegues ver?
     Conseguia. À sua frente encontrava-se ajoelhado um caçador musculado, com cortes em cada centímetro de pele visível. Era calvo mas possuía uma floresta de barba escura que lhe tapava parcialmente o queixo, e cobrindo o seu corpo espalhava-se uma grande quantidade de pelo que rivalizaria com qualquer urso. Tinha também ele a pele tatuada com formas rectangulares e pontudas, disformes devido às cicatrizes, que lhe conferiam um aspecto sujo. Vestia uns calções de pele, escuros e gastos. Lembrou-se e sentiu-se nú. Por detrás do homem esvoaçava uma túnia negra, que se perdia na escuridão atrás de si. Ao segui-la, o seu olhar encontrou então um grande vulto atrás do caçador. Um enorme touro negro que, preso ao tronco de uma árvore centenária, tentava infrutiferamente desprender-se dos amarros. Urrava com todas as suas forças, mas não produzia qualquer som.
     O homem à sua frente levantou-se. Percebou que tabém se encontrava no chão e levantou-se. Quase sem esforço. O seu corpo conferia-lhe mobilidade que nunca tinha experimentado. O homem dirigiu-se à enorme besta. Enquanto levantava calmamante a mão direita o touro foi-se acalmando. Pousou a mão sobre um dos seus chifres, segurando-a com segurança enquando puxava para baixo. O touro surpreendeu-se mas nada pode fazer contra a força do homem. Caíu de lado e não conseguia afastar a mão do homem da sua cabeça. O homem encontrava-se em frende à besta enraivecida mas impotente. Com o lado da outra mão desferiu um golde que quebrou um chifre com um estalo seco. De novo o touro sobressaltou-se e as suas patas esperneavam levantando poeira e destruíndo raízes mas estava feito. O homem apreciou por um momento o troféu. A sua façe demonstrou desagrado e deu-lhe o chifre. Com uma mão pegou-lhe. Era leve como uma pena, branco sujo com linhas escuras. Não sabendo o que fazer com aquilo levantou o olhar para encontrar uma explicação. Mas o homem puxava agora o outro chifre da creatura. Desta vez nao houve golpe rápido ou movimento brusco. Com a força de um seu igual, o homem puxou o touro para o levantar. Sentindo-se sobre as quatro patas o touro preparou-se para aplicar força para se soltar. Mas o pulso firme manteve a sua cabeça no ponto exacto onde queria, mesmo com o resto do seu corpo se mover de forma a contrariar o homem. Agilmente, este saltou e montou-o como a um cavalo. Sem local onde pudessem recostar, os seus pés desceram pelo dorso até encontrarem as coxas traseiras no animal, onde se fincaram. Ainda segurando a cabeça da besta, que agora coiçava para retirar o indesejado tripulante, o homem desferiu um poderoso muro na sua face, lateralmente. A criatura estacou.
     - Tens um nome, caçador caído? - perguntou-lhe o homem.
     Olhou para si próprio, pensando na questão. Não, não tinha um nome, mas algo escondido nas suas memórias despertou. Não o reprimiu.
     - Kupra Kopherorn - e as palavras saíram-lhe sem que as encomendasse.
     - Um nome digno de um caçador - respondeu - diriges-te a Sikka Domashjad, outro caçador, e não um demónio. Que fazes aqui, perdido entre montanhas, a dormir?
     Ah, tinha sido um pesadelo. O demónio que se tinha erguido na sua mente era gigantestco e incandescente, lembrava-se agora. Derrubava ou Nada como aquele caçador que agora o acudia.
     

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